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Entrevista sobre o livro “Pense por si mesmo”

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Pontos Principais

  • Terceirizamos muito do nosso pensamento para os especialistas e para as tecnologias;

  • Para recuperar o controle, precisamos manter os especialistas sempre disponíveis, não no controle;

  • O contexto é importante, e como os especialistas vivem nos silos, devemos prestar atenção ao panorama geral;

  • A amplitude de perspectiva é tão importante, senão mais importante, do que a profundidade do conhecimento;

  • Devemos (re)desenvolver a capacidade de trazer múltiplas perspectivas para fenômenos complexos, do contrário estaremos destinados ao desapontamento.

O livro "Pense por si mesmo" (Think for Yourself na sua versão original em inglês) de Vikram Mansharamani fornece uma abordagem equilibrada sobre como trabalhar com especialistas para lidarmos com as incertezas. Em vez de deixar que pensem por você, recorra à experiência adequada quando necessário. Abordagens multidisciplinares e interdisciplinares podem ser usadas para avaliar o conjunto, e ter um entendimento como um todo. Além disso, avaliar o contexto pode ajudar a compreender os limites do valor do especialista e auxiliar na utilização adequada dos insights.

Os leitores do InfoQ podem baixar um trecho do livro, aqui.

O InfoQ entrevistou Vikram Mansharamani sobre os problemas causados ​​pela especialização e por que os problemas complexos de hoje precisam de pensamento integrado; por que as pessoas terceirizam o pensamento para os especialistas, e se os especialistas ajudam ou atrapalham o pensamento; as desvantagens de focar e os benefícios em afastarmos nosso olhar daquilo estamos analisando, como ter um advogado do diabo pode melhorar a qualidade das decisões, quais habilidades devemos desenvolver para navegar através da incerteza e como podemos equilibrar a profundidade da experiência com a amplitude da perspectiva.

InfoQ: O que te motivou a escrever o livro?

Vikram Mansharamani: Como estudante de bolhas financeiras, passei muito tempo pensando em como uma abordagem multidisciplinar com várias camadas de conhecimento era capaz de identificar a exuberância irracional dos investidores. Percebi que uma abordagem multidisciplinar e multi-camada, ou multi-especialista, era semelhante e útil para pensar sobre todas as decisões complexas. PENSE POR SI MESMO é minha tentativa de ajudar os leitores a aproveitar o poder da triangulação para navegar por tempos incertos.

InfoQ: A quem se destina o livro?

Mansharamani: A qualquer um que possa se surpreender ao perceber o quão dependentes somos de especialistas e tecnologias, como viemos a ser assim, os custos dessa dependência, e como recuperar o controle daqueles que sequestraram nosso próprio pensamento. Dado que os exemplos no texto são de uma ampla gama de domínios diferentes, espero que abranja qualquer pessoa que utilize a contribuição de especialistas em processos de tomada de decisão.

InfoQ: Por que tantas pessoas se concentram na especialização? Que problemas isso causa?

Mansharamani: O fluxo avassalador de informações e a explosão de dados sugerem que ninguém é capaz de entender tudo por completo. Então, o que fazemos? Nos especializamos. E isso não é algo ruim. A especialização permitiu um progresso tremendo em muitas áreas, através do avanço do entendimento.

Mas isso teve um custo. Se pararmos para pensar sobre isso, o foco é realmente uma faca de dois gumes, pois permite iluminar uma área específica e se aprofundar nela. Mas também significa que ignoramos tudo o que não está na luz. Outra maneira de descrever "especialização focada" é "ignorar em amplitude".

InfoQ: Foi mencionado no livro que os problemas complexos de hoje precisam de pensamento integrado. Pode falar um pouco mais sobre isso?

Mansharamani: Os problemas complexos de hoje exigem abordagens multidisciplinares e interdisciplinares. Basta pensar na desigualdade, um problema complexo que assola várias sociedades na atualidade. Pensar meramente em renda e riqueza (e como tributar ambos) deixaria de lado os principais tópicos que estão em consideração. A educação é importante, com certeza, mas o financiamento da educação está vinculado (pelo menos na América) aos impostos imobiliários locais.

Assim, cidades ricas conseguem mais recursos para a educação, permitindo que os alunos tenham um bom desempenho e, eventualmente, consigam empregos bem remunerados. Da mesma forma, cidades com imóveis mais baratos podem ter escolas com menos recursos e alunos que nunca chegam ao seu potencial máximo.

Para começar a discussão sobre a desigualdade, precisamos de uma abordagem que integre esses (e outros) pontos em uma compreensão de todo o sistema.

InfoQ: Por que as pessoas terceirizam seu pensamento para especialistas?

Mansharamani: Acho que porque é mais fácil. Existe uma análise de custo-benefício que as pessoas fazem que as levam permitir que outras pessoas pensem por elas.

Nosso mundo atual é complexo. Temos muitas opções e, mais importante, estamos cientes de quantas opções temos. Quando escolhemos entre as opções, existe um instinto humano, aquele onde a economia se baseia, de tentar escolher o melhor. Mas tentar otimizar diante da incerteza e da interconexão é desafiador e nem sempre funciona.

A paralisia da análise é mais comum a cada dia. Uma horda de escolhas sobrecarrega os sistemas de foco, levando à ansiedade. Mas os riscos têm aumentado à medida que cada vez mais especialistas estão ficando mais especializados, e consequentemente, mais restritos.

É muito mais difícil pensar por si mesmo, fazer perguntas e desafiar as suposições, mas também há recompensas quando seguimos por este caminho. Podemos esperar um sentimento maior de controle, e com o tempo provavelmente teremos mais sucesso ao navegar nos mares da incerteza. Maior autonomia e, com sorte, melhores resultados também podem ser esperados.

InfoQ: Os especialistas ajudam ou atrapalham nosso pensamento?

Mansharamani: Dispensar a ajuda dos especialistas é tão problemático quanto concordar cegamente com eles. O segredo, como está escrito no livro, é mantê-los sempre disponíveis, mas acima de ninguém. Se fizermos isso, podemos extrair o valor real da experiência sem os custos de confiar cegamente neles. Às vezes, fazer perguntas é a melhor maneira de obter informações sobre o processo de pensamento e as suposições.

Outra forma é triangular múltiplas perspectivas por meio do uso de mais de um especialista. Isso pode exigir um esforço extra, pois leva tempo e esforço para buscar a orientação de várias autoridades, mas pense nisso como um quebra-cabeça, com os especialistas fornecendo as peças. Uma peça de um quebra-cabeça não mostra a imagem completa, mas conforme adicionamos mais peças, a imagem começa a surgir.

InfoQ: As pessoas estão acostumadas a ouvir que precisam se especializar em algo. Quais são as desvantagens de estar focado?

Mansharamani: A desvantagem de ser muito especializado é que não vemos o contexto geral. Embora todos tenham sido instruídos a se especializarem, o futuro pode pertencer àqueles que são qualificados não apenas para gerar pontos de informação especializados, mas também para conectar pontos de áreas diferentes. Aqueles que vêem o conjunto e buscam a experiência apropriada quando necessário, provavelmente governarão o futuro.

InfoQ: Quais os benefícios que a expansão da visão pode trazer?

Mansharamani: Ao se afastar um pouco, é possível ver o contexto no qual residem os silos dos especialistas. Isso nos permite obter um melhor entendimento de como as partes se encaixam. Ao nos concentrarmos, filtramos e, portanto, ignoramos muitas coisas. Ao nos concentrarmos sem pensar, ficarmos cegos em relação aos riscos e as oportunidades. Ao expandir a visão, somos capazes de observar as coisas com mais facilidade e, ao fazer isso, enxergar insights exclusivos e tirar proveito deles. Por exemplo, é fácil pensar nas tensões EUA-China como algo que passará quando a guerra comercial diminuir. Mas se olharmos para além da perspectiva de negócios, pensando sobre a corrida tecnológica, a corrida espacial, a guerra cambial e a corrida armamentista como parte da narrativa da rivalidade EUA-China, poderia concluir que as tensões vão persistir por algum tempo e assim podemos tirar proveito dessa realidade.

InfoQ: Como ter um advogado do diabo pode melhorar a qualidade das decisões?

Mansharamani: Cada decisão tem prós e contras. Frequentemente, subestimamos os contras das decisões. Forçar a perspectiva de como a escolha que estamos prestes a fazer é uma má decisão é um exercício saudável para permitir uma melhor compreensão da decisão e das possíveis ramificações. Isso também fornece a segurança psicológica para permitir uma discussão rigorosa sobre as desvantagens de uma grande decisão, sem que o opositor tema políticas punitivas.

InfoQ: Quais habilidades devemos desenvolver para navegar nos mares da incerteza?

Mansharamani: Acredito que seja extremamente importante pensar em termos de múltiplos futuros. Domínios incertos são aqueles em que a gama de resultados possíveis é ampla. Como tal, devemos encorajar a criatividade e a imaginação daqueles que nos ajudam a navegar através da incerteza. Precisamos perguntar sobre o que pode ser visto como resultados improváveis ​​e pensar sobre como desenvolvimentos improváveis, mas de alto impacto, podem nos afetar. E todos nós podemos reforçar as habilidades de imaginação lendo uma ficção, assistindo filmes e estudando vários cenários.

InfoQ: Como podemos equilibrar a profundidade da experiência com a amplitude da perspectiva?

Mansharamani: A profundidade da experiência prevalece e muitos de nós fomos guiados nessa direção. A chave é adicionar mais amplitude de perspectiva para que possamos estar mais equilibrados.

Isso pode ser visto no recente foco da educação baseada em habilidades, que às vezes vem às custas de uma educação em artes liberais. Embora não seja possível passar quatro anos na escola, uma maneira simples de fazer isso é mudar a forma como consumimos as informações. Ao invés de seguir feeds de notícias derivados de algoritmos, sugiro ler fontes que apresentam curadoria de forma ampla.

Na verdade, folheie todo um jornal físico ou uma revista inteira. Isso o forçará a ver as manchetes fora da nossa área de enfoque e, espero, que ajude a desenvolver uma perspectiva maior.

Sobre o autor

Vikram Mansharamani é professor na Universidade de Harvard e ministra um curso intitulado "Humanidade e seus desafios: abordagens de pensamento sistêmico". É autor do livro THINK FOR YOURSELF: Restoring Common Sense in a Age of Experts and Artificial Intelligence (HBR Press, 2020) e do BOOMBUSTOLOGY: Spotting Financial Bubbles Before They Burst (Wiley, 2019). O Linkedin o listou como uma das principais vozes relacionadas a dinheiro, finanças e economia, e a Worth o descreveu como sendo uma das 100 pessoas mais poderosas nas finanças globais. Tem um PhD e MS da MIT Sloan School of Management, um MS do MIT Political Science Department e um BA da Yale University. Pode ser seguido no twitter @mansharamani.

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