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Quando os novos empregos chegarem, você vai ser diletante ou profissional?

| por Alex Barros Seguir 0 Seguidores em 24 abr 2017. Tempo estimado de leitura: 6 minutos |

Muito se tem dito sobre o retorno dos empregos de manufatura para os Estados Unidos e outros países ricos, mas quanta prosperidade e estabilidade econômica vem desses empregos "legados"? Automação e inteligência artificial estão se incorporando ao cotidiano e embora o potencial varie de área para área, nenhum setor econômico deixará de ser afetado por essa revolução. Uma análise desta tendência e suas repercussões pode ser vista neste artigo da McKinsey / Company. Outra perspectiva é oferecida pelo Fórum Econômico Mundial no seu relatório The Future of Jobs. A tendência certamente não afeta apenas os países ricos; tem enorme impacto global. E não passa de um exercício de nostalgia a insistência em olhar para uma fotografia do mercado tirada anos atrás e tentar projetá-la para o futuro.

Então, onde estão os novos postos de trabalho? Um artigo da Wired confirma o que os leitores do InfoQ já sabiam: que o desenvolvimento de software é a nova grande fonte de empregos para a classe média. Com praticamente todas as atividades econômicas relevantes hoje contando com tecnologia, os desenvolvedores são de fato o combustível para este motor. Tratam-se de empregos estáveis, desafiadores e bem pagos, que exigem uma legião de pessoas dispostas e capazes de exercê-los.

Isso tudo é bom, mas como sempre o problema está nos detalhes. Como esses trabalhadores estão sendo se preparando para atender à demanda? O autor Steve McConnel discute a profissão de engenharia de software em seu livro After the Gold Rush (de 1999 mas ainda bastante atual). Ele defende que a engenharia de software é uma profissão tão importante quanto muitas outras estabelecidas há séculos, como Direito, Medicina e Arquitetura. Por isso, deve exigir o mesmo tipo de rigor e atenção necessários para qualificar seus profissionais.

Núcleo Estável

Alguém que entra na área deve ser incentivado a começar com conceitos fundamentais como design de projetos, estruturas de dados e análise de algoritmos. O ponto comum entre essas habilidades é que todas independem de tecnologia de implementação. São um núcleo estável. Ao focar e dominar este núcleo, pode-se facilmente transitar entre tecnologias - requisito que está entre as principais qualidades necessárias para ser um desenvolvedor bem-sucedido. Sem esta base, o que temos é um grupo de "diletantes" - não muito diferente de um dentista da época de Dom João que aprendeu a extrair dentes por tentativa e erro, usando clientes como cobaias.

Juntamente com o conhecimento sobre o núcleo estável, temos que considerar a importância dos chamados 'soft skills'. A imagem estereotipada do desenvolvedor à frente do computador sozinho por dias simplesmente não corresponde à realidade. As capacidades de expressar um ponto de vista, explicar aspectos complexos de maneira simples, trabalhar com grupos multidisciplinares - são todas habilidades essenciais.

Desenvolvedores de prateleira?

Já vimos que as pessoas podem seguir o caminho do profissional ou do diletante. Qual será o impacto para as empresas ao trabalhar com esses diferentes grupos?

Em meus anos de experiência como consultor de TI, uma coisa que sempre foi verdadeira em todos os meus projetos é que profissionais de TI não são uma mercadoria intercambiável. Entendo que algumas pessoas e empresas gostariam que fossem, e estão dispostas a tratá-los como tal. Um DBA Oracle acabou de sair? Escolha um da "prateleira" para substituí-lo; a tarefa pode ser feita remotamente e a um custo mais baixo? Faça!

Quantas vezes isso funciona? A realidade é que os desenvolvedores não são engrenagens genéricas. Um grande desenvolvedor (profissional) traz qualidades adicionais para o projeto que não são facilmente substituídas. A diferença é especialmente notada quando profissionais e diletantes se misturam. Se as empresas simplesmente contratam pessoas com base no conhecimento da nova tecnologia da moda, é fácil ver como acabará por acontecer uma "seleção natural":

  • Diletantes vão logo descobrir que têm dificuldade em navegar horizontalmente através de novas tecnologias, ou verticalmente (assumindo novas responsabilidades). Resultado: frustração, falta de motivação e queda na qualidade;
  • Algumas empresas sofrerão ao perceber o tamanho da lacuna entre o que é necessário para o sucesso, em termos de flexibilidade e competência, e que o mercado oferece em geral. Custos vão aumentar devido a retrabalho e algumas organizações sucumbirão;
  • Profissionais valiosos serão considerados "craques", mas outros vão se decepcionar quando fizerem parte de equipes que não conseguem entregar o que é esperado simplesmente por conta da capacidade "média" dos participantes.

Como lidar com esse cenário? Vejo essa questão através de dois pontos de vista complementares:

O lado das empresas e departamentos de RH - Para as empresas, em vez de recrutar "diletantes" que só trazem conhecimento superficial, concentrar na contratação de profissionais com compreensão sólida do núcleo estável. Uma vez que fazer esse filtro não é a principal competência do RH, é necessário envolver profissionais seniores de TI no processo de recrutamento. Sempre que possível, recrute de áreas de dentro da empresa com pessoas motivadas a investir em conhecimento básico. Pode ser necessário estabelecer um currículo inicial que os candidatos internos possam seguir. Também é valioso incentivar um programa de "aprendizes", em que jovens profissionais sejam orientados por outros mais experientes. Para empresas que terceirizam parte ou a totalidade de sua função de TI, estabeleça diretrizes para avaliar fornecedores e verificar se não estão oferecendo equipes que incluem apenas diletantes ou curiosos.

O lado dos indivíduos - Para as pessoas que querem tirar proveito dos novos empregos em desenvolvimento de software: procurar por cursos que tenham como ênfase os conceitos fundamentais. Isso não significa que uma nova faculdade é necessária, mas talvez alguns cursos de especialização possam ser úteis. Mescle estes cursos com treinamentos de tecnologia atual; assim você terá a possibilidade aplicar seus conhecimentos recém-adquiridos o mais cedo possível. Não vai ser fácil dominar tudo rapidamente, mas tenha a certeza de que uma vez conquistada a base, será muito mais fácil navegar no ecossistema. Se possível, encontre uma mentora que possa orientá-la e ajudá-la em sua jornada.

Conclusões

Vejo enormes benefícios na convergência nesses dois pontos de vista. As empresas estarão equipadas com uma nova geração de profissionais de TI capaz de atender consistentemente necessidades de tecnologia. Ao mesmo tempo, novos profissionais serão capazes de entregar resultados de qualidade. Mais importante: estarão qualificados para ir além de modismos.

Este cenário não é para o curto prazo, ou para pessoas que pensam em gratificação instantânea, mas certamente é o que mais favorece tanto empresas como indivíduos no longo prazo. Esse novo ambiente irá estimular a criação de uma força de trabalho nova e mais forte, que irá avançar a economia nas próximas décadas e moldar o caminho para gerações futuras.


Sobre o autor

 Alex Barros é Arquiteto de Soluções e Diretor de Operações do Brasil para a QAT Global. Por anos, trabalhou como consultor para empresas nos EUA e outros países, em áreas incluindo transporte, ciência animal e "smart grids". Durante sua carreira, trabalhou com tecnologias como Java, .Net, Data Warehousing e outras. É formado em Engenharia Eletrônica pela UFRJ e possui MBA pela Universidade de Nebraska em Omaha. Pode ser contatado através do e-mail alex_barros@qat.com.

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