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Grandes gerentes são como grandes professores: Bate papo com Jessica Ingrassellino

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Pontos Principais

  • O gerenciamento é desafiador porque todos possuem pontos fortes e fracos diferentes;
  • Estratégias de instrução diferenciadas ajudam os gerentes a liderar as equipes, concentrando-se nos pontos fortes como um meio de abordar áreas de crescimento;
  • Pergunte a si mesmo: Quais informações, recursos ou acomodações posso fornecer a cada membro da equipe para ajudá-los a ter sucesso?
  • Pergunte a si mesmo: Existem processos que posso mudar ou melhorar para ajudar todos os membros da equipe, especialmente os que podem estar com dificuldades? Como posso envolvê-los no processo?
  • Pergunte a si mesmo: O que é o sucesso para cada membro da equipe? Reconheça que as respostas serão diferentes e trabalhe em conjunto com cada membro para ajudá-los a encontrar o sucesso individual.

Estratégias de instrução diferenciadas ajudaram Jessica Ingrassellino a encontrar maneiras de cada membro da equipe a crescer e desenvolver-se melhor com as oportunidades disponíveis. Jessica aplica este modelo ajustando o conteúdo, o processo e o resultado, abordando cada membro da equipe como um indivíduo, respeitando às suas necessidades.

Jessica Ingrassellino é diretora de Garantia de Qualidade da Salesforce.org e fez uma apresentação sobre como os grandes gerentes são semelhantes a grandes professores, na European Testing Conference 2019. A conferência foi realizada nos dias 14 e 15 de fevereiro em Valência, Espanha:

O objetivo do evento é reunir especialistas e profissionais para conversar, aprender e praticar a arte de testar. Estamos estudando novos métodos avançados para tornar nossos testes mais eficazes, além de enriquecer a compreensão dos métodos fundamentais para desenvolver uma comunidade mais forte.

O InfoQ cobriu a conferência fazendo várias entrevistas, resumos e artigos.

O InfoQ entrevistou Jessica sobre os desafios que enfrentou quando se tornou gerente, como aplica as instruções diferenciadas no gerenciamento e liderança de equipe, como lida com políticas, regras ou questões da cultura empresarial em que são aplicadas a todos, quais os benefícios que foram observados pela maneira como lidera a equipe e como avaliar os funcionários de maneira contínua.

InfoQ: Quais foram os desafios enfrentados quando se tornou gerente?

Jessica Ingrassellino: Como gerente, descobri que estava muito preocupada com o bem-estar da equipe. No começo, me senti desafiada porque estava preocupada por não saber como ajudar a equipe a se ajudar. Com cada desafio, percebi que era capaz de analisar minha experiência como professora e percebi que estava realmente preparada para ajudar, orientar e gerenciar da melhor maneira possível.

Quando ensinava música no ensino médio, tive uma turma de alunos de idades e habilidades totalmente diferentes. Havia cerca de 45 alunos nessa turma em particular, um grupo bem grande. Uma das minhas alunas era estrangeira e tinha acabado de chegar aos Estados Unidos com sua família, por isso não falava inglês. Se continuasse a ensiná-la usando apenas materiais escritos, feitos para pessoas do ensino médio, ela teria se saído mal na minha turma, porque teria problemas em compreender o material escrito. Realizei alguns ajustes para que a aluna pudesse utilizar materiais de vídeo e gravações em áudio para aprender a tocar piano. Ela aprendeu a ler partituras muito rapidamente, e realmente se destacou no piano e demonstrou excelente compreensão musical. Minha preocupação com o bem-estar da minha aluna, e minha decisão de ajustar a abordagem e estratégia fizeram com que ela fosse bem-sucedida na matéria, aprendesse música e demonstrasse o entendimento de uma maneira apropriada para suas habilidades e aptidões. Na prática, isso significava que ela estaria um passo mais perto de cumprir os requisitos artísticos e se formar no sistema educacional americano.

InfoQ: O que é a instrução diferenciada?

Ingrassellino: A instrução diferenciada é uma estratégia educacional onde o professor planeja o ensino de maneira a atender às diferentes necessidades dos alunos nas salas de aula. Por exemplo, alguns estudantes são excelentes leitores e preferem trabalhar sozinhos, enquanto outros gostam do aprendizado social e trabalho em grupo. Os professores podem ajustar o conteúdo das aulas, os processos de ensino ou os resultados criados pelos alunos. Outro exemplo, é de quando ensinei os alunos sobre história da música, tive que ajustar às diferenças de leitura dos quase 50 alunos. Muitos tinham um nível de leitura de crianças de 12 anos ou nem isso, apesar de terem entre 14 e 18 anos de idade. Com base nessa informação, quando planejei minhas aulas, encontrei níveis fáceis, médios e difíceis de leitura de cada tópico. Os alunos foram incentivados a selecionar a leitura que melhor se encaixava para eles, e as informações que precisavam aprender estavam disponíveis em cada um dos textos. A única diferença foi a nuance e o nível de detalhe entre eles.

InfoQ: Como aplicou as instruções diferenciadas para gerenciar e liderar a equipe?

Ingrassellino: As estratégias de instrução diferenciadas me ajudaram no trabalho com cada membro da equipe, encontrando maneiras de cada pessoa crescer e se desenvolver com as oportunidades disponíveis. Notei que muitas empresas de engenharia de qualidade estruturam as equipes de qualidade usando exatamente as mesmas práticas gerais para todos os colaboradores. Apliquei uma abordagem diferenciada investindo tempo, conhecendo os membros da equipe, especialmente os pontos fortes, as áreas que precisavam melhorar e seus objetivos profissionais.

Alguns membros estão felizes trabalhando como colaboradores individuais e gostariam de ajuda para definir metas e prioridades. As reuniões que faço com esses colaboradores individuais são focadas em estratégias de definição de objetivos, estratégias de comunicação em equipe, com ênfase em como esse testador fará melhorias específicas. Nessas reuniões, sou a professora que ajusta o conteúdo e os inputs para concentrar no estabelecimento de metas e o resultado a ser alcançado por essas metas específicas.

Para outros membros da equipe, o crescimento e as habilidades de liderança são muito importantes. Esses membros precisam de ajuste nas informações para ter discussões mais estratégicas e abertas. As reuniões são focadas no compartilhamento de ideias e nas estratégias de alto nível, sendo o resultado mais impreciso, requerendo trabalho contínuo, já que é menos determinístico do que o resultado utilizando metas pré-estabelecidas. De fato, esse resultado pode até ser um fracasso, e refletir sobre o fracasso é uma meta de aprendizado. O método é bem diferente dos demais em que o foco é articular o sucesso.

Nos dois exemplos, ajusto o conteúdo (o que é discutido), o processo (qual estratégia utilizo para trabalhar com o membro da equipe para atingir os objetivos) e o resultado (o que constitui sucesso).

InfoQ: Estou assumindo que haverá coisas que serão aplicadas a todos os membros da equipe, políticas da empresa, regras ou questões da cultura empresarial. Como lida com isso?

Ingrassellino: Novamente, é importante entender que cada pessoa é diferente. Cada membro da equipe pode ter reações diferentes às mesmas políticas da empresa, por isso é importante ouvir suas preocupações e permitir que sejam agentes de mudança. Vamos usar dois membros da equipe como exemplo. Carla pode ter alguns desafios porque a política de "proibição de trabalho remoto" está em conflito com o cuidado de um membro da família ou com uma doença pessoal. Iria incentivar a Carla a aprender sobre a empresa, investigar os motivos por trás dessa política e verificar se há espaço para alterá-la. Trabalharia com a Carla para aprender como poderia sugerir mudanças e fornecer informações sobre como elas acontecem. Dessa forma, mesmo que o resultado não seja do jeito que a Carla gostaria, poderá crescer e se tornar um membro forte da cultura da empresa e ter um entendimento maior sobre este tema. Além disso, também pode tomar uma decisão informada sobre o que fazer, se quer continuar sendo colaboradora daquela empresa, ou prefere procurar por novas opções?

Há momentos em que um membro da equipe levanta uma questão importante em relação a cultura geral da empresa. Digamos que Jon é um indivíduo com deficiência que precisa se locomover utilizando uma cadeira de rodas, e se sente preocupado e desconfortável com o espaço de trabalho. Nesse caso, é importante reconhecer a experiência negativa de Jon, discutindo o conteúdo de uma política específica com ele, ajudando-o a criar um plano e avançando-o utilizando as estruturas internas da empresa, permitindo que o funcionário investigue e participe das principais mudanças estratégicas. Quando um funcionário vê que o resultado mudou e que fez parte da mudança, neste caso, um ambiente de trabalho melhor, é reforçado a ideia de uma cultura em que os funcionários são ouvidos e respeitados.

A chave para essas duas situações é, novamente, ajustar a resposta com diferenciação. O que discutiria com Carla, que tem uma preocupação individual, é diferente do que discutiria com Jon, que tem uma preocupação mais global. As diferenças na discussão (o conteúdo) são sutis, já as ações (a estratégia) são semelhantes e os resultados para ambos podem parecer diferentes, trabalhar em casa em comparação a ter o melhor espaço de trabalho acessível, porém abordar cada colaborador como um indivíduo, tendo respeito às suas necessidades, é crítico para que tudo funcione.

InfoQ: Quais benefícios conseguiu observar?

Ingrassellino: Talvez o maior benefício que vi neste estilo de liderança seja a confiança. Sinto que não só profissionalmente mas também pessoalmente, conheço os membros da minha equipe. Cheguei a uma melhor compreensão de onde encontram os desafios e a felicidade. Por isso, sou capaz de apresentá-los a desafios e oportunidades de crescimento que são realistas e adequados às suas capacidades.

Sinto que os membros da minha equipe confiam em mim para ajudá-los a se desenvolver. Sei que nem sempre ficaram felizes ao receber um feedback crítico, pois pode ser realmente difícil. No entanto, permaneceram abertos a dar e receber feedbacks. Portanto, confiam que posso ouvir algo que talvez não irei gostar de ouvir, e confiam que tenho em mente seus interesses profissionais individuais quando forneço o feedback e discuto como melhorar.

InfoQ: Como podemos avaliar os funcionários de maneira contínua?

Ingrassellino: Em termos educacionais, isso é chamado de avaliação formativa. A avaliação formativa acontece o tempo todo, mesmo quando não sabemos disso. Por exemplo, o uso de um software mal fabricado faz com que o usuário fique frustrado porque as coisas continuam dando errado. O clientes sabem que o software é "ruim", mesmo que não possam dizer o porquê. Nas escolas, as crianças baseiam suas opiniões sobre o desempenho das notas e também sobre a maneira como os professores agem e reagem com seus deveres. No gerenciamento, as pessoas geralmente têm um senso de como trabalham, assim como os gerentes. Para os membros da equipe e para muitos testadores de software em geral, é fácil ficar atolado no trabalho do dia-a-dia fazendo com que o compartilhamento de feedback sobre um ótimo trabalho ou sobre áreas de melhoria possam ser facilmente esquecidos.

Diferentemente das avaliações sumativas (que são os testes e os tipos de revisão anual), a avaliação formativa, com ciclos rápidos de feedback, fornece mais valor ao aprendizado, porque os membros da equipe podem melhorar assim que o feedback é dado, em vez de ter apenas uma chance por ano de aprender e melhorar. No entanto, para ser uma avaliação formativa, o feedback precisa ser intencional e frequente. Os gerentes precisam fornecer um feedback tangível. Se o feedback for positivo, o gerente pode fornecer mais valor, mostrando as ações que foram positivas. Se o feedback for construtivo, precisará ter um componente acionável para que o funcionário saiba como melhorar seu desempenho. É melhor que isso seja discutido com o colaborador para que se torne um agente de mudança.

Dar feedbacks formativos é mais fácil quando feito regularmente. O feedback regular oferece a todos os membros da equipe a oportunidade de refletir sobre seu desempenho e fazer melhorias para que atinjam seus objetivos quando as revisões anuais ocorrerem.

InfoQ: Se as pessoas querem aprender mais sobre instruções diferenciadas, onde podem encontrar?

Ingrassellino: Uma pesquisa sobre "instrução diferenciada" no Google produzirá milhares de resultados e pode ser reduzida com base naquilo que a pessoa gostaria de saber. Recomendo o livro How to Differentiate Instruction in Mixed Ability Classrooms escrito por Carol Ann Tomlinson, como sendo uma cartilha. Pode-se abstrair os princípios básicos em um contexto de gerenciamento a partir do contexto da sala de aula.

Além disso, aqui está um artigo sobre a aplicação de estratégias diferenciadas na programação de ensino, que as pessoas podem achar interessante: Student Usage Patterns and Perceptions for Differentiated Lab Exercises in an Undergraduate Programming Course.

Quanto a um livro que fale sobre esses princípios na engenharia de software? Talvez eu precise escrever!

Sobre a entrevistada

Dra. Jess Ingrassellino é diretora de engenharia de qualidade na Salesforce.org. É ativa na comunidade educacional, membro do Conselho Consultivo da Indústria da CUNY TechWorks, ensina Python e testes de software no Queensborough Community College. Ingrassellino compartilha o amor por aprender e testar com o mundo, palestrando em conferências nacionais e internacionais sobre as experiências como testadora, professora e musicista.

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