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Iconoclastia e validação de hipóteses em startups

Postado por Manoel Pimentel em 08 Nov 2011 |

O mundo dos negócios passa por grandes mudanças, em especial na forma como se cria produtos inovadores em ambientes de extrema incerteza. Boa parte das mudanças está sendo encabeçada pelo movimento de Lean Startup. O Lean Startup nasceu como espinha dorsal metodológica para aumentar as chances de sucesso durante a fase de startup; ou seja, como uma forma de trabalho para transformar aprendizados em resultados concretos, durante a etapa inicial de qualquer empreendimento de TI .

Esse movimento se baseia na aplicação, em startups, de alguns pilares da filosofia Lean, como por exemplo just-in-time, produção puxada (Pull System) e melhoria contínua. Seu principal benefício é a geração de valor de forma antecipada, por meio do aprendizado validado (testado) e com o menor nível de desperdício de tempo, dinheiro e talentos.

Vale destacar que o Lean Startup, deriva o conceito de just-in-time para proporcionar que os "estoques" de incertezas sempre sejam os menores possíveis em um ambiente de startup. E isso é de enorme valor e de grande aplicabilidade, acredito eu, a todas as empresas com necessidade de gerar inovações.

Segundo Eric Ries, autor do livro The Lean Startup e criador do movimento de mesmo nome, "uma startup é uma instituição humana projetada para criar novos produtos e serviços, sob condições de extrema incerteza". O Lean Startup oferece uma abordagem para encurtar o tempo de aprendizado sobre incertezas. O encurtamento se dá por meio da realização de testes para validar, ou invalidar, de maneira antecipada, hipóteses acerca de uma ideia ou produto.

A base do Lean Startup é a validação de aprendizados, pois ainda segundo Ries, "uma startup existe para aprender como construir um negócio sustentável". Esse aprendizado acontece através da experimentação científica, que por meio de mensurações, permite ao empreendedor validar ou refutar cada elemento de sua visão de negócio. Assim, um empreendedor, com base nos resultados de suas validações, pode prosseguir com seu produto/serviço, ou fazer pequenas alterações de percurso, ou ainda mudar totalmente e até desistir por completo daquela sua ideia.

Nadar contra a maré

Em específico, é importante considerar uma característica de boa parte dos empreendedores de sucesso. Talvez não exista uma fórmula mágica de incutir essa característica em empreendedores, por se tratar de algo pessoal, irracional e nem um pouco científico. É a iconoclastia, ou em outras palavras uma forma de "nadar contra a maré" quando se tem uma ideia e uma visão singular de futuro.

Um iconoclasta é alguém que, além de ter uma visão extremamente diferente das coisas, confia muito em seu instinto sobre o futuro, mesmo sem um motivo lógico, e mesmo com resultados iniciais desfavoráveis para a sua ideia.

Um iconoclasta, como indica a própria palavra, quebra ícones. Aqui o termo ícone é aplicado para representar as regras, o senso comum, as crenças, as premissas, ou qualquer outro tipo de pensamento que seja considerado como verdade absoluta ou como um conceito que nunca possa ser quebrado.

A grande questão é que quando se pressupõe um resultado de uma validação de hipóteses como sendo uma verdade absoluta, um ícone está sendo criado para aquele contexto. Por exemplo, se numa validação de hipóteses os resultados mostrarem que dez dentre dez clientes rejeitam determinado produto, poderia ser criado um "ícone" de que o produto não seja bom. Aqui um iconoclasta pensaria: "O problema não é com meu produto, apenas não estou atingindo o público certo para ele ainda" .

Força e visão

Pode parecer um pouco radical ou contra-intuitivo, mas pare para pensar: quantos negócios hoje bem-sucedidos passaram antes por uma fase de resultados totalmente desanimadores? E mesmo com resultados não favoráveis, sempre havia alguém que, mesmo chamado de louco ou teimoso, topou e aguentou passar um bom período "dando murro em ponta de faca", até aquela sua ideia emplacar no mercado.

Para que isso aconteça, costumo resumir que um iconoclasta, além da capacidade de "remar contra a maré", possui duas características fundamentais para o seu sucesso:

  1. Musculatura emocional. Ter ou estar disposto a desenvolver uma capacidade extrema de resiliência. Em outras palavras, desenvolver resistência psicológica para enfrentar os diferentes tipos de problemas e desprazeres pontuais de criar um empreendimento. Essa característica é de grande relevância, pois uma startup de maneira geral é um campo fértil para problemas em assuntos como relacionamento com clientes, questões jurídicas/legais, carga tributária, redes de parceiros/concorrentes. Além disso, um empreendimento tem uma forte tendência natural para um comportamento oscilante na sua saúde financeira. Portanto, é por meio da musculatura emocional que um empreendedor poderá olhar para qualquer "problema" como uma oportunidade de aprendizado e crescimento.
  2. Visão de futuro. Talvez a única maneira que um empreendedor tem para suportar as dores de empreender é se apoiar numa possível visão de sucesso e realização no futuro, que será gerada pela suplantação dos desafios atuais em seu empreendimento, e o aprendizado acerca desses desafios.

Estas constituem uma poderosa combinação de características pessoais para um empreendedor. Contudo é importante ressaltar que não estou dizendo que Lean Startup é um modelo limitado e que a iconoclastia é mais importante do que a validação científica de hipóteses. Muito pelo contrário, Lean Startup é uma ferramenta importante para qualquer empreendedor. E é claro que um iconoclasta não precisa ser tão extremo em suas convicções. A iconoclastia pode ser perigosa se uma pessoa ignorar os feedbacks e não aprender como melhorar continuamente o seu empreendimento.

Conclusões

Esse texto tenta ser um relato de batalha, com base em algumas experiências do autor, para socializar que o ato de empreender, mesmo que munido de uma boa metodologia, também requer certas competências emocionais vitais para ajudar um empreendedor a sobreviver aos desafios inerentes ao seu negócio. No final das contas o segredo é o equilíbrio, pois na prática, empreender trata-se de ciência empírica baseada em resultados, combinada com fé e confiança nos seus instintos.


Sobre o autor

Manoel Pimentel Medeiros (@manoelp) é Diretor Executivo do Instituto de Coaching Aplicado a TI (ICA-TI). Foi um dos pioneiros em Agile no Brasil. Tem um punhado de certificações e títulos, e é socializador de conceitos como TAE (Teoria da Alavancagem Estrelar), Manifesto for Meta-Agile, Coaching para Metalhoria, MVI (Minimum Viable Improvement), Rodeias (Roda de Ideias) e AgileMMA (Agile Mixed Methodologies Adoption).

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Parabéns pelo artigo by Claudio Lima

Olá Manoel, parabéns pelo texto. Está muito bem escrito e cheio de boas reflexões sobre empreendedorismo.
Acho que o ponto do seu artigo foi muito bom, pois acredito que está havendo certo ENDEUSAMENTO sobre Lean-Startup na comunidade. Na prática, as questões PESSOAIS que voce mencionou no texto, acabam sendo a parte mais importante para resolver os problemas e fazer ascoisas acontecerem numa Startup.

Brilhante by Juca Oliveira

Mestre Manoel, sabias e verdadeiras são as suas palavras. Concordo plenamente que mesmo um uma metodologia bonitinha para empreender, o cabra tem que ter estômago e " musculatura emocional" como você bem disse. Concordo também que LeanStartup êh bom, mais não eh tudo. Observo que Lean Startup, apesar de usar Agile em sua base, está se esquecendo de um conceito muito rico de que não existe bala de prata. Vejo que o pessoal de Lean Sartup está exatamente com o pensamento de que ela é uma bala de prata. Isso pode ser muito perigoso.

Parabéns pelo material.

Cultura e aprendizado continuam ... by Guilherme Elias

Grande Manuel. Muito bom seu artigo, relembrou aqui alguns fundamentos da cultura Lean como um todo. Creio que no Brasil ainda estejamos gatinhando no assunto apesar de já termos grandes entusiastas e empresas renomadas no assunto, tudo isso graças a coragem de nossos "empreendedores". Descordando um pouco aqui do comentário do Juca Oliveira. Lean Startup em minha humilde visão justamente mostra não ser a bala de prata por muitas vezes invalidar idéias que não possuem um modelo de negócio rentável suficiente para se manter no mercado, mostrando ao nosso ilustre iconoclasta que ao invés de perder dinheiro apostando em um futuro cego, ele pode validar sua idéia e provar que ela é rentável ou não antes mesmo de sair gastando. Isso sim pode ser o diferencial do movimento Lean Startup, ensinar a um iconoclasta ou então a ao dono da loja de roupas da esquina a identificar se sua idéia ou produto tem um modelo de negócio válido. Abraço!

Re: Cultura e aprendizado continuam ... by Manoel Pimentel (InfoQ Brasil)

Cláudio, Juca e Guilherme, obrigado pelos comentários. Acho Lean Startup uma abordagem excelente para ambientes de inovação. A ideia do artigo é reforçar essa força da metodologia e, também, gerar uma reflexão sobre a famosa questão "People over Process" que nós temos aplicado em nossos empreendimentos.

Obrigado a todos!

Manoel Pimentel

Grande Manoel by Wagner Santos

Estava com saudades de seus textos,, parabéns!!!

Re: Grande Manoel by Manoel Pimentel (InfoQ Brasil)

:-) Obrigado grande Wagner. É uma honra tê-lo como leitor.

Ótimo artigo by Djair Rodrigues

Olá professor. Gostei muito do artigo! Estou concluindo Administração pela UFRN, e pretendo fazer a monografia baseada no tema startups. Porém ainda estou meio confuso quanto ao objetivo da pesquisa e o tema propriamente dito, visto a dificuldade em achar referencial teórico. O senhor poderia me ajudar de alguma forma?

De ante mão, agradeço a atenção e novamente parabenizo pelo trabalho.

Atenciosamente

Djair Rodrigues

Sensacional by Renato Ferreira

Olá Manoel, seu artigo foi um dos melhores artigos sobre empreendorismo que já li. Estou vendo que muitas pessoas querem empreender porque veêm histórias como a do Mark Zuckerberg e acham que empreender é o caminho sem esforço para o dinheiro. Quando é exatamente o contrário, o que você fala sobre musculatura emocional, pura verdade, quantas vezes esforços e dinheiro foram perdidos na tentativa de algo que você acreditava dar certo e não deu, quantas vezes não pensamos em desistir porque os resultados estão indo contra e a pressão só está aumentando. E a parte do feedback ? Essencial, se você não conseguir aprender com seus erros e sempre melhorar seu processo, você não chegará lá.

Parabéns Manoel!

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