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O Agile sufoca a criatividade dos introvertidos?

por Todd Charron , traduzido por Leandro Luque em 09 Abr 2012 |

Por vários anos, o movimento ágil vem encorajando desenvolvedores a programarem em pares e equipes a trabalharem de forma colaborativa em ambientes abertos, mas recentemente estas práticas têm sido criticadas.

Em janeiro, a revista semanal "The New Yorker" publicou um artigo sobre brainstorming intitulado "Groupthink" (Pensamento em Grupo).

Brainstorming parece ser uma técnica ideal, uma forma natural de impulsionar a produtividade. No entanto, há um problema com esta técnica: ela não funciona.

Citando vários estudos, o artigo conclui:

A técnica de brainstorming não contribui para a manifestação do potencial do grupo, além de acabar tornando cada indivíduo menos criativo. Embora os resultados apresentados pelos estudos não tenham afetado a popularidade da técnica, estudos posteriores chegaram à mesma conclusão. Keith Sawyer, psicóloga na Universidade de Washington, resumiu: "Décadas de pesquisa têm mostrado de forma consistente que grupos de brainstorming produzem menos ideias que as geradas pelo mesmo número de pessoas trabalhando individualmente".

É claro que brainstorming não é uma técnica exclusiva das metodologias Ágeis e pode nem ser utilizada em algumas equipes ágeis, mas o que dizer sobre salas de desenvolvimento, trabalho em grupo e programação em pares?

Há pouco tempo, Susan Cain deu uma palestra no TED Talk, intitulada "The Power of Introverts" (O Poder dos Introvertidos), que acabou ficando muito popular. Sua palestra e o post em seu blog focaram a tendência em se valorizar pessoas extrovertidas e trabalho em grupo.

Solidão, segundo Cain, é uma chave para a criatividade. Darwin fazia longas caminhadas e recusou diversos convites para jantar. Dr. Seuss escrevia sozinho e evitava encontrar crianças que liam seus livros, por receio de que ficassem desapontadas com seu jeito quieto de ser. Steve Wozniak declarou que nunca teria se tornado um especialista, se tivesse deixado seu lar. É claro que a colaboração é positiva (Wozniak e Steve Jobs são provas disso), mas existe um poder transcendental na solidão.

O que temos aprendido com os psicólogos confirma este poder da solidão para a criatividade. Quando participamos de grupos, instintivamente procuramos reproduzir certos comportamentos de outros participantes, principalmente da pessoa mais carismática, mesmo não existindo relação entre ser um bom orador e ser uma fonte de grandes ideias.

Susan finaliza sua palestra convidando a plateia à ação:

"Acabem com a loucura do trabalho em grupo constante." Escritórios precisam de interações informais e espaços adequados para isso, mas precisamos também de mais privacidade e autonomia. O mesmo se aplica - e talvez de forma mais intensa - a escolas. Devemos ensinar crianças a trabalharem em conjunto, mas também a trabalharem sozinhas.

Jon Evans escreveu recentemente sobre programação em par em seu artigo no Tech Crunch, "Pair Programming Considered Harmful?" (Programação em Par é Considerada Prejudicial?)

Grandes desenvolvedores de software, como o San Francisco's Pivotal Labs e o Toronto's Xtreme Labs, adotaram uma abordagem 100% baseada em Programação em Pares, com considerável sucesso.

Ótimo! Problema resolvido, certo?

...Não tão rápido.

"Pesquisas sugerem fortemente que as pessoas são mais criativas quando estão livres de interrupções e em sua privacidade… Um artigo do New York Times, crítico à "forma de pensar em grupo", comenta que o diferencial dos programadores de companhias altamente produtivas não é o alto grau de experiência, nem o salário maior. O diferencial destes ótimos programadores é o quanto são livres de interrupções e o quanto possuem privacidade e espaço pessoal". O artigo também parafraseia Steve Wozniak:

"Trabalhe sozinho... Não em grupo. Não em uma equipe."

Escritórios planejados para serem espaços abertos, em particular, parece ser uma péssima ideia. "Layouts de espaços abertos favorecem a distração em massa, prejudicando a produtividade", de acordo com uma análise recente divulgada pelo U.K.'s Channel 4, do Reino Unido. A Hacker News também cita: "Muitos layouts de escritórios modernos parecem ser projetados para estragar a competividade entre pessoas e seu instinto criativo".

Jon ainda acrescenta algumas evidências de que o trabalho em pares pode ser bom para a criatividade:

Trabalhar sozinho é bom para a criatividade - mas o trabalho em par com alguém que pensa de modo diferente de você pode levar a um grau ainda mais alto de criatividade.

E conclui:

A resposta correta é que não existe uma única resposta; o que funciona melhor é uma combinação dinâmica de trabalho solitário, em par e em grupo, dependendo do contexto. A programação em pares definitivamente tem o seu valor. A aplicação da programação em pares pode acontecer "na maioria dos dias", mas insistir em uma abordagem 100% baseada em pares é uma ideia sem sentido, e como todas ideias sem sentido, é pouco produtiva.

Outro artigo, que aborda a forma como as redes sociais são voltadas para extrovertidos, critica as empresas por detrás destas redes:

Mark Zuckerberg, por exemplo, defende abertamente ambientes de trabalho abertos e paredes de vidro como uma metáfora para o mundo como ele sonhou. Este é um exemplo de como a natureza universal das redes sociais está penetrando na vida real - e esse é um problema para aqueles que gostam das paredes onde elas costumavam estar.

O movimento ágil deve ser criticado por popularizar as ideias de colaboração e interação? Tem sufocado os introvertidos e a criatividade por todos estes anos? Se sim, o que poderia ser feito? É a hora de voltarmos aos cubículos?

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Muita calma nessa hora by Paulo Porto

O que acontece é que o cada ser humano tem suas particularidades, seus interesses, seus comportamentos, etc. De fato, não dá pra simplesmente dizer que metodologia tal é a melhor a ser seguida por todos, sem exceção. Temos que pensar em pessoas, pois são elas as protagonistas da coisa.

Não acho que o movimento ágil deve ser criticado, ele tem suas grandes vantagens, mas como falei anteriormente, não dá pra achar que isso vai ser excelente pra toda equipe do mundo. Para muitos, isso vai funcionar perfeito, mas pra alguns, de fato, pode não ser o ideal, pois cada pessoa tem seu temperamento, sua forma de estar mais confortável perante a execução de suas atividades.

Existem pessoas que preferem ficar isoladas, fazer as coisas sozinhas entre quatro paredes, mas também podemos ver outras que preferem trabalhar em equipe, colaborando, interagindo com outras pessoas, e nesse último caso, o movimento ágil cai como uma luva.

Uma coisa que eu admiro e que vem funcionando bem (inclusive já existe caso de sucesso), é proporcionar o revezamento entre cada tipo de técnica. Por exemplo, algumas empresas já estão concedendo aos seus funcionários a possibilidade de trabalharem em home office. Para isso, eles reservam 2 dias ao funcionário trabalhando em casa e 3 na empresa, ou o contrário. Dessa forma, além de alinhar a possibilidade do funcionário trabalhar em sua própria residência (o que é do gosto da maioria), bem como ter seus momentos solitários e criativos, vão ter dias em que ele vai poder trabalhar colaborando e aplicando técnicas como programação em par e outras métodos ágeis dentro da empresa.

Sendo assim, a empresa vai saber que tipo de modelo cada funcionário rende melhor, tanto no quesito produtividade, quanto na criatividade, e com isso, ter a possibilidade de visualizar e aplicar o que é melhor tanto a ele quanto pra empresa.

Até mais!

Os indivíduos devem ser responsáveis pelo processo by Arisio Costa

As pessoas (a equipe) devem ser e se sentir responsáveis pelo processo que utilizam a cada projeto. Acredito nisso. Acredito plenamente no Manifesto Ágil, do qual destaco um valor e um princípio:

- valorizamos Indivíduos e interação entre eles mais que processos e ferramentas

- Em intervalos regulares, o time reflete em como ficar mais efetivo, então, se ajustam e otimizam seu comportamento de acordo.

Se acreditamos nisso, as pessoas não devem simplesmente seguir um processo, qualquer que seja ele, por melhor que tenha sido em outros projetos, por mais que ele esteja “bombando” na mídia especializada, com o aval de respeitados gurus da tecnologia.

Por que não devem? Porque cada projeto “pede” um processo que seja seu. Mesmo que as diferenças sejam pequenas, elas podem ser significativas para o sucesso do projeto.

O post “Franchising de Metodologia – Poderemos Ser Escravos de Algum?” em meu blog, trata do assunto.

Quando o processo comanda as pessoas, a criatividade tende a ser residual, quase inexistente, e pode afetar os resultados do projeto.

Re: Os indivíduos devem ser responsáveis pelo processo by Arisio Costa

Só depois de publicado foi que percebi que os links se perderam. São eles:
Manifesto Ágil: agilemanifesto.org/iso/ptbr/
meu blog: desenvolvimentodesoftware.wordpress.com/

Re: Muita calma nessa hora by Rafael Carinha

Concordo Paulo!

Desvalorização da indiviudalidade by Luiz Mitidiero

Recebi esse artigo por um amigo, e não posso deixar de comentar, cada vez mais noto a desvalorização da individualidade dentro dos métodos ágeis, você não tem mais direito de ser o que você realmente é, você é obrigado a ser o que o seu time em sua maioria é, ou o que querem que você seja, você perde o direito de pensar como gosta, de se expressar da maneira como quer, e passa a ter que simplesmente seguir o grupo, e muitas vezes o resultado disso é desastroso, pois ao invés das empresas quererem aproveitar uma pessoa que é diferente das demais, que tem uma visão diferente, que faz coisas diferentes, elas querem transformar a pessoa em apenas mais um.

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